O banqueiro Daniel Vorcaro teria pago R$ 1 milhão ao consultor de comunicação Guilherme Barros para tentar adiar e amenizar uma reportagem sobre o Banco Master publicada pela Folha de S.Paulo. Conversas de WhatsApp obtidas pelo Metrópoles indicam que o profissional negociou com o diretor de redação do jornal, Sérgio Dávila, enquanto o empresário demonstrava preocupação com possíveis impactos negativos da publicação sobre a instituição financeira.
Em uma mensagem enviada em 7 de agosto de 2024, Vorcaro orientou Barros a usar todos os recursos disponíveis para impedir a publicação naquele momento. “Gasta todos seus cartuchos aí, se voce conseguir segurar e nao sair nada vc tem um prêmio de R$ 1mm”, escreveu o banqueiro. Na mesma conversa, justificou a urgência: “Se eles soltam isso agora eles vao quebrar o banco” (sic).
No dia seguinte, às 13h27, Barros informou que havia conseguido adiar a matéria. “A Folha vai segurar a matéria. O Sérgio me respondeu agora”, escreveu, em referência a Sérgio Dávila.
A publicação ocorreu em 30 de agosto de 2024, pelo menos 22 dias após a conversa sobre o adiamento. O texto recebeu o título “Novato na Faria Lima, banqueiro de 40 anos chama a atenção para aquisição em séries e festa com Alok”.
O episódio aconteceu em um período importante para o Banco Master. Em 8 de agosto, o Banco Central homologou o aumento de capital do Banco de Brasília (BRB), operação que posteriormente permitiu ao BRB comprar mais de R$ 16 bilhões em carteiras de crédito do Master e ajudou a dar sobrevida à instituição de Vorcaro.
Naquele mesmo mês, o Master também fechou a compra do Will Bank. O banqueiro ainda atuava politicamente em favor da chamada emenda Master, apresentada em 13 de agosto de 2024, que buscava elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura oferecida pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Encontro com diretor da Folha
As mensagens também apontam que, um dia após o adiamento, Barros informou a Vorcaro que Dávila havia solicitado uma data para tomar café com o banqueiro. “O Sérgio Dávila acabou de me pedir uma data para tomar um café contigo e eu”, escreveu o consultor. Vorcaro respondeu: “Pode marcar qq dia” (sic).
Segundo as conversas, o encontro ocorreu em 12 de agosto, na sede da Folha de S.Paulo, com a participação do diretor de redação e de dois editores. A reunião não foi registrada publicamente na coluna Painel, como costuma ocorrer com visitas ao jornal.
A troca de mensagens indica ainda que Vorcaro e Barros discutiram informações que deveriam aparecer na reportagem. Entre os pontos sugeridos estavam dados positivos sobre o Master, como a antecipação da meta de patrimônio líquido de R$ 5 bilhões, o objetivo de alcançar R$ 10 bilhões em 2026, a aquisição da seguradora Kovr e a criação de um comitê estratégico com Henrique Meirelles e Gustavo Loyola.
Os certificados de depósito bancário (CDBs) do Master também foram apresentados como “os mais rentáveis do mercado”, sem questionamentos sobre a estratégia de captação que já despertava críticas no mercado financeiro.
Mudanças após prisão de Vorcaro
A comparação entre versões da reportagem indica que trechos favoráveis ao banqueiro foram retirados após sua prisão, em 17 de novembro de 2025. Informações sobre as metas positivas do banco também deixaram de aparecer, enquanto um novo parágrafo passou a descrever a operação como uma “estratégia agressiva de venda de CDBs com alta remuneração aos aplicadores”.
Segundo o levantamento publicado pelo Metrópoles, os leitores não receberam uma explicação específica sobre as mudanças no conteúdo. O Manual de Redação da própria Folha afirma que “suprimir ou inserir uma informação de um texto pode alterar o significado da notícia” e destaca a importância da transparência com o público.
Outro ponto de preocupação de Vorcaro era a possibilidade de a reportagem mencionar uma casa em Orlando, nos Estados Unidos, ligada a seu pai. Em uma das mensagens, o banqueiro questionou o que teria a ver com o imóvel e afirmou estar afastado do familiar havia quase cinco anos. O texto publicado citou o pai e seus negócios, mas não mencionou a mansão.
Consultor cobrou pagamento
Após a publicação, Barros retomou a conversa sobre o valor prometido por Vorcaro. O consultor afirmou que, embora a reportagem tivesse sido publicada, o texto havia saído de forma mais branda, e deixou o banqueiro à vontade para decidir sobre o pagamento.
“ No episódio da matéria da Folha, vc tinha me falado sobre um success fee, caso a matéria não saísse. A matéria, evidentemente, saiu, porem muito mais branda, o que espero que concorde”, escreveu Barros. Ele também afirmou que não costumava trabalhar com amigos motivado por pagamentos desse tipo.
Vorcaro respondeu que o consultor merecia receber. “Amigo, vc merece muito, vamos ajustar” (sic), escreveu. De acordo com a apuração do Metrópoles, o banqueiro realizou o pagamento por Pix.
O que dizem a Folha e Guilherme Barros
Questionada pelo Metrópoles, a Folha de S.Paulo negou ter adiado a reportagem a pedido de Vorcaro. Segundo o jornal, o texto ainda não estava pronto, e o banqueiro havia solicitado prazo para apresentar sua versão dos fatos, pedido que foi concedido.
A publicação também afirmou que o encontro com Vorcaro foi solicitado por Guilherme Barros para que o empresário pudesse apresentar seu lado da história. De acordo com o jornal, o pedido para que a visita não fosse registrada no Painel também partiu do consultor, e ambas as solicitações foram atendidas.
Sobre as mudanças posteriores, a Folha declarou que a reportagem não foi amenizada e que as alterações ocorreram para incluir a prisão do ex-banqueiro. O jornal acrescentou que os leitores são informados sobre modificações por meio de um aviso abaixo da data original de publicação.
Dávila afirmou que só tomou conhecimento do pagamento de R$ 1 milhão após ler as mensagens vazadas nos últimos dias. A Folha confirmou ainda ter recebido R$ 516.441,60 em anúncios de empresas ou negócios vinculados a Vorcaro ao longo de cinco anos.
Em nota, Guilherme Barros afirmou que prestou serviços de assessoria de imprensa ao Banco Master até 2025, quando encerrou o contrato. Ele disse que suas atividades incluíam organizar entrevistas e reuniões com veículos de comunicação e apresentar os argumentos dos clientes durante a apuração de reportagens.
O consultor também declarou ter atuado com transparência, ética e respeito à liberdade de expressão. Sobre o caso, afirmou que a conversa com o jornal foi marcada para prestar esclarecimentos e que as questões encaminhadas foram respondidas. Segundo Barros, a matéria foi publicada em 30 de agosto de 2024 “com absoluta independência editorial do jornal”.
